Archive for Maio, 2013

Deslição de anatomia

Quase fui médico.
Cedo acreditei
ter inclinação.
Aconteceu, em menino,
frente aos compêndios escolares.
Fascinava-me,
no corpo humano,
o vocabulário em flor:
o suco gástrico,
o bolo alimentar,
o trânsito intestinal,
as papilas gustativas.
Ante o meu prematuro pasmo,
a professora vaticinou: vai ser médico!
Em casa, porém,
meu pai diagnosticou diverso:
não era a anatomia que me atraía.
Eu apenas amava as palavras.
Meu pai adivinhava.
E eu, de poesia, adoecia.
Mia Couto
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O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora

Mia Couto, in “Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra”

 

I owe Marilyn Monroe a real debt. It was because of her that I played the Mocambo, a very popular nightclub in the ’50s. She personally called the owner of the Mocambo [ed. note: who had refused to book Fitzgerald because she was black], and told him she wanted me booked immediately, and if he would do it, she would take a front table every night.

She told him – and it was true, due to Marilyn’s superstar status – that the press would go wild. The owner said yes, and Marilyn was there, front table, every night. The press went overboard… After that, I never had to play a small jazz club again. She was an unusual woman – a little ahead of her times. And she didn’t know it.

                   Ella Fitzgerald

 


O teu rosto será o último

(…) Horas a fio de contemplação e nunca havia dado por ela. Agora, parecia-lhe o centro de tudo. Não a rapariguinha a beber água junto do poço, como chegara a pensar. Nem o homem gordo de camisola e barrete azuis montado numa pipa de vinho. Nem a alma do outro mundo em cima de um carro puxado por duas cordas. Nem as crianças a jogarem ao pião. Nem a mulher empinada numa escada. Nem a outra à beira da fogueira. Nem o homem que parecia prestes a lançar-se de uma janela. Nem os pobres de mão estendida. Nem a procissão a sair pela porta da igreja. Nem o homem da gaita de foles. Nem o outro que acartava uma saca às costas. Nem aqueles a dançarem de mãos dadas fazendo uma roda. Nem o barrigudo de panela na cabeça a tocar guitarra. Nem os dois peixes enormes dentro de um cesto. Nem a criança de braços no ar. Nem o grupo de mascarados. Nem as freiras. Nem o leitão que o homem gordo de camisola e barrete azuis segurava num espeto. Nem o porco atrás do poço. Nem a banca do peixe. Nem o homem a despejar um balde pela janela. Nem as duas árvores. Não. O centro de tudo era aquela mulher de lenço azul na cabeça, apoiada em duas muletas. Era ali, naquela figura, que tudo começava e tudo acabava. (…)

José Ricardo Pedro ( Prémio LEYA)


Díptico Vertical


O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!

Florbela Espanca
in Correspondência (1930)


Dia da Mãe

A minha está bem e muito viva.


Díptico Vertical


(…)

Tu eras a pessoa mais antiga que eu jamais conheci. Eras a monotonia de meu amor eterno,
e eu não sabia. Eu tinha por ti o tédio que sinto nos feriados, O que era? era como a água 
escorrendo numa fonte  de pedra, e os anos demarcados na lisura da pedra, o musgo 
entreaberto pelo fio d’água correndo, e a nuvem no alto, e o homem amado repousando, 
e o amor parado, era feriado, e o silêncio no voo dos mosquitos. E o presente disponível. 
E minha libertação lentamente entediada, a fartura, a fartura do corpo que não pede e não precisa. 

[…]
Clarice Lispector
in, A Paixão segundo G. H.
Relógio D’ Água