O teu rosto será o último

(…) Horas a fio de contemplação e nunca havia dado por ela. Agora, parecia-lhe o centro de tudo. Não a rapariguinha a beber água junto do poço, como chegara a pensar. Nem o homem gordo de camisola e barrete azuis montado numa pipa de vinho. Nem a alma do outro mundo em cima de um carro puxado por duas cordas. Nem as crianças a jogarem ao pião. Nem a mulher empinada numa escada. Nem a outra à beira da fogueira. Nem o homem que parecia prestes a lançar-se de uma janela. Nem os pobres de mão estendida. Nem a procissão a sair pela porta da igreja. Nem o homem da gaita de foles. Nem o outro que acartava uma saca às costas. Nem aqueles a dançarem de mãos dadas fazendo uma roda. Nem o barrigudo de panela na cabeça a tocar guitarra. Nem os dois peixes enormes dentro de um cesto. Nem a criança de braços no ar. Nem o grupo de mascarados. Nem as freiras. Nem o leitão que o homem gordo de camisola e barrete azuis segurava num espeto. Nem o porco atrás do poço. Nem a banca do peixe. Nem o homem a despejar um balde pela janela. Nem as duas árvores. Não. O centro de tudo era aquela mulher de lenço azul na cabeça, apoiada em duas muletas. Era ali, naquela figura, que tudo começava e tudo acabava. (…)

José Ricardo Pedro ( Prémio LEYA)

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