Archive for Fevereiro, 2009

PALAVRAS E DESEJO

A BARREIRA – O toque que os corpos se revelam.

Filosofias e ideias, belas palavras, tudo é, no fundo, barreira ou sedução.

Com as ideias queremos por vezes fazer um colar belo e com a filosofia e as palavras tentamos tornar mais bonito o nosso rosto e o nosso corpo. É isto de resto um intelectual – disse a senhora Woolf – Intelectual é alguém que procura tornar-se mais belo através do raciocínio e dos autores que leu.

É uma estratégia como qualquer outra – acrescentou a senhora Woolf – umas pintam os olhos mais assim ou azul, outras põem vestidos decotados, outras penteiam-se com cuidado, põem cheiros capazes de competir com as flores e outros, feios como calamidades, em vez de aromas usam letras e em vez de olhinhos a piscar piscar, atiram aos outros raciocínios elaborados, muito elaborados, re-re-elaborados.

Mas há ainda outro fim para as palavras utilizadas entre dois ou mais corpos: fazer barreira, parede – disse a senhora Woolf. Se entre duas pessoas só uma deseja a outra e se os dois se encontram finalmente a sós, a melhor maneira de elegantemente um escapar à sedução directa do outro é não parar de falar. Arma ainda mais terrível: fazer perguntas.

Imaginem: uma das partes excitada, com uma única ideia – tocar no outro, beijá-lo, despi-lo, fazer amor; e o outro, a repetir o método insuportável de Sócrates, fazendo perguntas e perguntas: – Como e que vês a vida? Que projectos?

Final da história – murmurou a senhora Woolf – os dois, de noite, ‘lado a lado na cama, sozinhos, a falar de Platão, Wittgenstein, Kierkegaard e, agora, um e outro, a evitarem, por tudo, o silêncio, o fim das palavras, esse espaço de ausência da linguagem onde os corpos se sentem finalmente em casa e se atacam.

– O que é que se passou entre eles? Nada, Falaram até altas horas da noite.

– O que é que se passou entre eles? Tudo. Pois calaram-se logo no inicio da noite.

Gonçalo M. Tavares


To you…

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento