Literature

A função da arte

Pensemos no amor. As relações amorosas são difíceis. Muitas vezes nas relações amorosas damos connosco a pensar: ‘Estarei doido? O que é que se passa connosco? Será que as pessoas discutem como nós?’. A televisão não mostra este tipo de discussões, mas todos sabemos que dizemos coisas sem sentido uns aos outros – mas sentimo-nos sempre muito sós nisto. Quero que um fotógrafo moderno fotografe casais nos momentos reais da vida, quando alguém diz: ‘Vai-te lixar’, e bate com a porta. Isto acontece a pessoas muito porreiras. Quero ter numa legenda: estas duas pessoas acabaram de dizer ‘vai-te lixar” mas são muito porreiras. Isso é uma coisa que a arte nos devia ajudar a agarrar: não somos monstros por nos comportarmos de maneira infantil e em pânico. Devíamos poder ir a um museu e reconhecermo-nos, para nos darmos outra oportunidade de nos vermos a nós mesmos não como monstros. Isto é uma missão para a arte: ajudar-nos, ser uma ferramenta, ter uma função. É como uma colher ou uma bicicleta.”

Alain de Botton (Público- 05/06/12)


Quer um bom desafio?

Não sou boa com números. Com frases-feitas. E com morais de história. Gosto do que me tira o fôlego. Venero o improvável. Almejo o quase impossível. Meu coração é livre, mesmo amando tanto. Tenho um ritmo que me complica. Uma vontade que não passa. Uma palavra que nunca dorme. Quer um bom desafio? Experimente gostar de mim. Não sou fácil. Não colecciono inimigos. Quase nunca estou p’ra ninguém. Mudo de humor conforme a lua. Me irrito fácil. Me desinteresso à toa. Tenho o desassossego dentro da bolsa. E um par de asas que nunca deixo. Às vezes, quando é tarde da noite, eu viajo. E – sem saber – busco respostas que não encontro aqui. Ontem, eu perdi um sonho. E acordei chorando, logo eu que adoro sorrir… Mas não tem nada, não. Bonito mesmo é essa coisa da vida: um dia, quando menos se espera, a gente se supera. E chega mais perto de ser quem – na verdade – a gente é.

Fernanda Mello


Uma viagem à India

Quem ouve boa música merece nascer noutra vida como flor


As gavetas

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.

Pedro Mexia


O mundo é belíssimo, mas não se entende.

Bloom pensou no mar e na beleza.
O fundo das águas é coisa imaginária
mas morre-se afogado ao tentar entendê-lo.
O fundo dos elementos vedado aos olhos
do Homem. O mar que antes estava calmo,
perturbado na sesta pelo mergulho adolescente, vinga-se
com uma morte que só dois meses depois
outro povo recolhe na praia. As águas
fingem ser flores que podes cheirar de perto,
atraem-te, inclinas-te és puxado;
morrerás.

Gonçalo M. Tavares


Das gaivotas

Porque motivo apenas te aproximas de mim quando queres fazer amor? No resto do tempo chegas do banco e és só jornal e calças no sofá, se tento falar-te o jornal treme de zanga, sobe mais um pouco, as pernas cruzam-se, impacientes, em sentido contrário, o sapato fica a dar e dar no vazio, toco-te e encolhes-te, faço-te uma festa no cabelo e a cabeça diminui de tamanho, arrepiada, um protesto ronca das notícias

– O que foi agora? – Já nem se pode ler em paz? – Fazes o favor de não me despentear?

jantas calado a rolar bolinhas de pão entre suspiros, desapareces antes que eu acabe de comer, nem uma palavra para a minha saia nova, uma pergunta sobre como me correu o dia nas finanças, um beijo, ficas de mãos nos bolsos a olhar o prédio em frente, atiras o canal para o desporto quando começa a novela, aborreces-te do desporto, carregas no botão e reaparece a novela

– Olha essa porcaria à tua vontade

tudo te enjoa, te aborrece, te cansa e uma vez por semana, quando já estou meia a dormir, o teu braço a arrepelar-me, o ombro que me aleija, uma vertigem rápida, um camião a abanar o prédio na rua, eu a fixar os números luminosos do despertador ao lado das tuas costas indiferentes, o que aconteceu, amor, para mudares assim tanto

(- Não mudei nada, que mania)

ao conhecermo-nos, há dez, minto, há onze anos, chegavas-te a mim embrulhado em vénias de timidez, a ensaboar as mãos, com o sorriso borboleteando em volta da boca sem se atrever a poisar

– Um dia destes convido-a para um café, menina Clara

tão atencioso, tão terno, tão preocupado comigo, a notar quando eu mudava de brincos, de penteado, de anel

– Que bem lhe fica a franja, menina Clara

o meu pai simpatizou logo contigo por te levantares, com o tal sorriso a adejar, mal eu entrava na sala, o que aconteceu, amor, para mudares assim tanto

(– E ela a dar-lhe, que gaita)

descíamos para a muralha do rio, em Novembro, com as gaivotas todas na praia, corríamos de mão dada a assustar os pássaros, achavas-me graça, achavas-me bonita, dizias que eu ficava linda a correr

– Parece mesmo uma gaivota, sabia?

que qualquer dia me escapava de ti, a bater as asas no rasto de um cargueiro turco, perguntavas-me ao ouvido, aflitissimo, ansioso

– Nunca me deixa, pois não?

(– As fantasias que tu vais buscar, meu Deus)

apertavas-me tanto pela cintura que quase não conseguia respirar, por favor explica-me o que fiz de mal para mudares assim tanto, ainda sou capaz de correr da mesma maneira se voltarmos à praia em Novembro, que é feito do teu sorriso e do ensaboar das mãos, ponho um baton diferente, a blusa decotada, os sapatos que nunca me atrevi a usar para os homens não se meterem comigo na avenida

– Ainda há quem me ache engraçada, sabias?

(– Pois que lhes faça muito bom proveito)

desço lá abaixo à muralha e fico no meio das gaivotas à espera que chegues

(– Agora deste em maluca ou quê?)

sem jornal, sem caretas, sem bolinhas de pão, a convidares-me, nervoso, para um café na esplanada, soprando pelo meio do sorriso que não pare, que não pare

– Apetece-me tanto dar-lhe um beijo, Clarinha

(– As parvoíces que a gente diz em novo, senhores)

e nisto, não sei se deste conta, as gaivotas sumiram-se todas e ficamos sozinhos, amor, só a praia e as ondas e eu tão contente, tão com a certeza

– ainda tenho a certeza

(– Cada qual tem as certezas que quer)

de sermos felizes para sempre, de podermos ser felizes se um dia me deixares; deixas não deixas, aposto que deixas,

(– Que teimosia, que insistência, já é cisma, caramba)

abraçar-te.

 

António Lobo Antunes

 

 


Uma viagem à India

As mulheres sempre foram mais
minuciosas na vingança – disse Bloom. Folheiam-na
sem saltar uma página. E tratam das unhas
antes de pegar no machado.
Pelo contrário, um homem com raiva
e ressentimento é atabalhoado, desastrado,
incapaz de encontrar a pronúncia perfeita da violência,

como se pegasse em ferramentas
despropositadas: a charrua
para arrancar uma flor,
o martelo para ver mais perto.

Gonçalo M. Tavares


Uma viagem à India

Porém, Bloom não se sentou logo nas poltronas
que lhe pareciam ter um conforto excessivo.
Com prudência e curiosidade perguntou
se poderia passear um pouco por tão delicioso apartamento
que, apesar de pequeno, era prometedor,
sendo que todos sabem
que um homem pode demorar mais tempo
a percorrer a minúscula casa da mulher que deseja
do que a atravessar o mundo, de uma ponta à outra,
com mochila às costas.

Gonçalo M. Tavares


Palavras com amor

A minha pessoa é a Maria João e a Maria João passa mal. Nem o amor nem a sabedoria médica a podem salvar. Só uma conjunção das duas coisas, mais um acrescento de milagre. O cabrão do cancro alastra-se. Exterminado no pulmão ou na mama, foge para o cérebro, onde se refugia e cresce. Forma uma força da morte, aproveitando as barreiras antigas entre o sangue e o cérebro, que infiltra conforme lhe apetece. Hoje, domingo, é o último dia em que estaremos juntos, dois amores, felizes há quase vinte anos. Amanhã, logo às nove da manhã, estaremos na consulta dos excelentes neurocirurgiões do Hospital de Santa Maria, onde nos avisarão das complicações possíveis. Obama deveria inspirar-se na perfeição clínica e humana do serviço de saúde português e francês. Mas a dor não diminui. Nem a tristeza abranda. Vai morrer o meu amor. Não vai. Como o meu amor por ela, nunca há-de morrer. As coisas acontecem sem acontecer o pensamento nelas. A alma, o coração e a cabeça são coisas diferentes. Que se dão bem. E são amigas. E deixam de ser quando morrem.

Miguel Esteves Cardoso (Público – 29 Abril 2012)


Os livros e Shakespeare

Hoje é o dia do livro e também o dia em que morreu Shakespeare

É a voz da cotovia anunciando a aurora!
Vês? há um leve tremor pelo horizonte afora.
Das nuvens do levante abre-se o argênteo véu,
E apagam-se de todo as limpadas do céu.
Já sobre o cimo azul das serras nebulosas,
Hesitante, a manhã coroada de rosas
Agita os leves pés, e fica a palpitar
Sobre as asas de luz, como quem quer voar.
Olha! mais um momento, um rápido momento,
E o dia sorrirá por todo o firmamento!
Adeus! devo partir! partir para viver…
Ou ficar a teus pés para a teus pés morrer!

♦ ♦ ♦ ♦

It was the lark, the herald of the morn,
No nightingale. Look, love, what envious streaks
Do lace the severing clouds in yonder east.
Night’s candles are burnt out, and jocund day
Stands tiptoe on the misty mountain tops.
I must be gone and live, or stay and die.

Romeo and Juliet



Irei sem perdoar

Quero horas para me despedir do pobre país em que vim ao mundo. Relembrar que o amei como se fosse gente, me senti menino acarinhado e feliz no seu regaço. Que dele aprendi a língua,  única no modo de embalo, aquela que para lá do sentido das palavras deixa entrever os mistérios da música e do eterno.
O país da suavidade, do desespero, dos sonhos infantis, das mãos pobres que um nada enche, do sofrimento envergonhado e amanhãs que nunca chegam.
Irei sem perdoar aos que o rebaixam.

J. Rentes de Carvalho


Vendaval

Hoje está um vento literário. Daqueles que os escritores gostam de fazer soprar em dias de grandes redemoinhos na intriga ou na iminência de desenlaces trágicos. Eu, dada às catástrofes, gosto do vento. Do vento a sério. Aprendi na lírica medieval que o vento é masculino e, desde então, não tenho deixado de encontrar provas dessa natureza. Nada que se explique, obviamente, como não são explicáveis os vendavais provocados pela indiferença estudada de uns gestos corteses e firmes. Raros, está visto, como os dias de vento a sério num tempo em que o Inverno abranda e abdica da força doce a que foi destinado.

Ivone Costa


Filomeno, para meu pesar

Pronto, despedi-me de mais um íntimo, com quem passei longas horas a conhecer o seu percurso de vida. Filomeno, um jovem herdeiro de grandes fortunas, por parte da mãe Galega e do pai Minhoto, vai ao longo da sua vida tentando gerir de forma discreta os bens deixados pelos seus pais. Durante a infância, adolescência e juventude, vai tentando juntar e compreender as diferentes peças que nos formam como um todo. Passa pelas principais capitais europeias como correspondente de guerra, presenciando os bombardeamentos de Londres, o avanço das tropas Nazis e a ascensão de Franco em Espanha.

Termina o livro, ainda no auge da sua juventude, a gerir cabeças de gado vacum, na sua quinta Minhota.

Até um dia, Filomeno, Ademar, Freijomil ou quiçá, Alemcastre.


Esta noite em Samarcanda

Curiosa esta história, mas eu sigo a linha do princípio das possibilidades alternativas.

Na praça de uma cidade, um cavaleiro vê a morte fazer-lhe um sinal e aterrorizado, vai ter com o rei, pedindo-lhe emprestado o mais veloz dos seus cavalos, para que possa fugir para bem longe, até Samarcanda. O rei convoca a morte ao palácio para lhe perguntar porque assustou o seu cavaleiro. E a morte, surpresa, responde-lhe: “Não lhe quis meter medo, mas espantou-me vê-lo aqui, sabendo que esta noite temos encontro marcado em Samarcanda”.


Filomeno, para meu pesar

Não levei muito tempo a concluir que nada havia mais enfadonhamente sério  do que a economia, nada mais racional e rigoroso. Às vezes aparecia-me como uma cadeia interminável de números, e outras como a forma quase geométrica de uma rede que abarcasse o mundo inteiro, talvez que o oprimisse, se bem que não com a mesma força em todos os lugares. Naquele mundo, a única realidade era o dinheiro, que se movia, crescia ou minguava segundo as suas próprias leis, sem que nada humano interviesse neste ir e vir, crescer e decrescer. Uma vez em que disse ao meu economista que o desemprego era um factor humano, ele respondeu-me que, naquele mundo, o desemprego não existia senão sob a forma de subsídio, isto é, não fome e dor, mas sim mais números no cálculo geral. (…)

Por baixo dos governos, ou por cima, mas sempre com independência, o mundo era conduzido por umas quantas pessoas, na City ou em Wall Street.

Gonzalo T. Ballester


Domingo

… vou continuar a preguiça, seguindo as aventuras do meu herói do momento, Filomeno.


As Cidades Invisíveis

Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.

– Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – pergunta Kublai Kan.

– A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra – responde Marco, – mas sim pela linha do arco que elas formam.

Kublai Klan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta: – Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.

Polo responde: – Sem pedras não há arco.


RESERVATÓRIO INESGOTÁVEL

Diálogo entre Colbert e Mazarino durante o reinado de Luís XIV extraído da peça de teatro Le Diable Rouge, de Antoine Rault:

Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço…

Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado… o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se… Todos os Estados o fazem!

Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?

Mazarino: Criam-se outros.

Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarino: Sim, é impossível.

Colbert: E então os ricos?

Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert: Então como havemos de fazer?

Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.”


Minto Até Ao Dizer Que Minto

Um conto de José Luís Peixoto caracterizado pelo humor e a ironia. Uma história interessante, que se lê quase sempre com um sorriso nos lábios, e que ganha sobretudo pelos pormenores bizarros e divertidos que abundam na vida do personagem principal e do seu amigo Mefistófoles. A acção decorre em Lisboa, no mês de Agosto, habitada apenas por turistas e aqueles poucos que não conseguiram sair para férias, em cenários facilmente identificáveis para quem conhece e aprecia a cidade.

 Lê-se de um fôlego só, numa viagem de comboio de Lisboa para qualquer destino.

Cheguei à rua quando a tarde chegava ao seu próprio descanso. Era como se a ideia romântica de agosto assentasse sobre agosto. Nas tréguas frescas da claridade, o toque de telemóveis era etéreo, os arrumadores eram estátuas de espuma, as obscenidades que os pedreiros gritavam do alto dos andaimes dissolviam-se no ar. Eu olhava para os transeuntes e via leitores. Pela primeira vez, ia ter a oportunidade de comunicar com as pessoas que adormeciam nos autocarros, que liam fotonovelas, que batiam nos filhos.

Existir era uma espécie de despedida cósmica, tristeza tranquila e reconfortante, como se avançasse dentro de um solo de guitarra dos Pink Floyd.

 


I hope…

The Curious Case of Benjamin Button