Archive for Setembro, 2012

Tu és dos IMPRESCINDÍVEIS!

Uma oferta da minha amiga Ana.

Há homens que lutam um dia e são bons,
há outros que lutam um ano e são melhores,
há os outros que lutam muitos anos e são muito bons.
Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.

Bertold Brecht

Eu sonho com serpentes, com as serpentes do mar
Com certo mar, oh, de serpentes sonho eu
Grandes, transparentes e em suas barrigas carregam
O que pode acabar com o amor

Ah, eu a mato mas aparece uma maior
Oh, com mais voracidade em digerir

Não caibo em sua boca, logo ela se encarrega de me engolir.
Mas se engasga com meu trevo da sorte
Eu acho que ela está louca: lhe dou a mastigar
Uma pomba da paz e a enveneno com o que há de bom em mim.

Essa enfim me engole, e entro por seu esôfago,
Vou passando, vou pensando no que acontecerá
Mas ela se destrói quando chego ao seu estômago
E planto com um verso uma verdade
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Foi bonita a festa, pá

 


I’m selling my soul

Vamos lá ver, no fundo, nem desgosto de trabalhar, e é até com um certo estoicismo que enfrento este destino de Sísifo que carrego diariamente às costas. Mas do que gosto mesmo, mas mesmo, é de não trabalhar. Não quero parecer frívolo, pedante e cruel numa altura em que o desemprego sobe tanto. É horrível estar desempregado e ficaria destroçado se amanhã acordasse sem trabalho. Só que não seria por não estar a trabalhar mas apenas por não ter dinheiro para me poder sustentar. Eu não falo do prazer de não ter emprego, falo do prazer de não trabalhar quando se tem emprego.
São tantas as coisas boas que só podemos fazer por não estarmos a trabalhar. Uma delas é não fazer absolutamente nada. Daí eu olhar com desconfiança para as pessoas que regressam com ar festivo ao local de trabalho como se pertencessem a uma daquelas seitas religiosas onde se canta, chora e  se dão as mãos. Lembra-me um pouco aquilo a que o escritor Vassili Grossman chama de “ascetismo laboral”. Ter aquele ar de quem vive para o trabalho, concentra tudo no trabalho, olhos de trabalho, ouvidos de trabalho, pele de trabalho. Quase uma erótica do trabalho, que, nalguns casos mais chocantes chega mesmo a ser pornográfico.
José Ricardo Costa


Os amantes sem dinheiro

( em dia de contestação)

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro.
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto
que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade.


Balanço do início do ano lectivo

– estoy triste y las gentes saben porquê.


Antes de morrer eu quero…

… viajar ininterruptamente (durante 1 ano).


A fórmula

Houve tempos em que acreditei na fórmula de Nietzsche para a felicidade: «um sim, um não, uma linha recta, uma finalidade». Percebi, depois, que é exactamente o contrário. Muitas vezes, onde julgamos estar um sim vamos afinal encontrar um não, onde vemos um não esconde-se muitas vezes um sim, entre dois pontos, as curvas sinuosas podem revelar-se bem mais interessantes e eficazes do que uma linha recta e, por último, a ideia de finalidade aplica-se certamente melhor à cabeça de um artesão que projecta uma cadeira ou uma mesa que irá depois fabricar, do que à cabeça de alguém que deseja ser feliz.
Não se precisa, por isso, de aprender uma nova fórmula, mas de aprender a viver sem fórmulas. Se isso for considerado desde logo uma fórmula, que o seja. Mas que seja então a única.

José Ricardo Costa



God’s Away On Business


Silêncio

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

Alberto Caeiro