Archive for Julho, 2011

Estou além


This is the mood

vou-me rir muito
vou gozar mais
vou cantar o sol-e-dó
perder-me em doses fatais
tu vais ver só
o pé de vento que se vai levantar
comigo a rodopiar


Rugas em Braille

Ela chama-se Mercedes, faz 80 anos em Dezembro e cegou em criança. Já leu em Braille O Livro do Desassossego, Os Maias, A Escola do Paraíso e De Profundis Valsa Lenta, faz tricot às escuras e arroz de cenoura às claras e queria fazer-me uma pergunta que não podia fazer a uma pessoa qualquer. O seu ar embaraçado comoveu-me e duplicou a minha curiosidade. “Quando passo os dedos pelo rosto, não sinto as rugas, apesar de saber que elas estão lá. As rugas têm cor”? Queria saber por que não consegue ler as rugas em Braille.

Maria João Freitas


O que fazer quando o inimigo não é o outro?

Mesmo ignorando-se se Anders Breivik agiu no quadro de uma organização ou se representa “a emergência do todo-poderoso lobo solitário”, tornou-se claro que os atentados de Oslo e de Utoya criaram um novo paradigma para a violência extremista na Europa. Esse paradigma emula o terrorismo islamista quanto à monstruosidade e ao desprezo pela vida humana. Não teme sacrificar os seus, nem conhece quaisquer limites. Mesmo que tenha sido a obra de um louco solitário, abriu um precedente à escala europeia. E isso é particularmente perigoso, num momento em que as tensões xenófobas e antimuçulmanas percorrem todo o continente europeu, impulsionando uma nova extrema-direita que reage ao multiculturalismo agarrando-se à defesa dos valores identitários e tradicionais. O mesmo estratagema, portanto, que inspira o extremismo islâmico.

Em Oslo e em Utoya, contudo, o inimigo não era o outro, era um de nós. Mas, se esta crise que percorre a Europa foi aberta pela rejeição do outro, ficou provado que a semente do terror também pode estar dentro de casa.

Jornal  O Público


The love of a woman with a funny mind is the definition of paradise, he thought.  

Norman Rush, Mortals. 


Morte aos 27 anos

Jovens, músicos, famosos, ricos e com um detalhe em comum: todos morreram aos 27 anos.

We live, we die and death not ends it.

Where are the feasts we are promised?
Where is the wine, The new wine, dying on the vine?


Um casal de psicólogos behavioristas acaba de fazer amor. Ele vira-se para ela e diz: “Amor, foi bom para ti, como é que foi para mim?”

Ponteiros Parados


A história da moral

Você tem-me cavalgado
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá–lo.

Alexandre O´Neill



Narciso

«Quando Narciso morreu, conta Oscar Wilde, todas as flores da margem, desoladas, pediram ao rio algumas gotas de água para chorar.

– Ah – disse o rio –, nem que todas a minhas gotas de água fossem lágrimas me bastariam para chorar a morte de Narciso. Porque o amava.

– Impossível não o amar! – disseram então as flores –. Era tão belo!

– Era belo? – pergunta rio.

– Quem melhor do que tu para o saber? – disseram as flores –. Ele todos os dias se debruçava na margem e contemplava nas tuas águas a sua beleza.

– Mas não era por isso que eu o amava – disse o rio.

– Então porque era?

– Porque, quando ele se debruçava, eu podia ver a beleza das minhas águas nos seus olhos.»


Valter Hugo Mãe

Como um escritor português (que merece ser levado a sério) apelou para a emoção e usou a festa literária de Paraty de maneira exemplar para passar de desconhecido a fenómeno no Brasil.

 


On the road

Lucille jamais me compreenderia, porque gosto de demasiadas coisas e fico completamente desorientado e obcecado a correr de uma estrela cadente para outra até cair. Eu não tinha nada para oferecer a ninguém, tirando a minha própria confusão.

J. Kerouac


A mesma língua


Passeando por terras de Cabral

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Quase, quase…


Nas compras com…

– Eh pá, esqueci-me do pepino.

– Eu vou buscar. Este agrada-te?!  Diz sorridente mostrando uma enorme courgette.

Reposta a verdade e dirigindo-se para perto da balança, cumprimenta um colega que está a pesar duas lindas mangas.

– Uhmmmm…Papaias…



Consoantes átonas

Emudecer o afe[c]to português?
Amputar a consoante que anima
a vibração exa[c]ta
do abraço, a urgência

tá[c]til do beijo? Eu não nasci
nos Trópicos; preciso desta interna
consoante para iluminar a névoa
do meu dile[c]to norte.

Inês Lourenço


Naked

 


This is the mood

One more week of hard work and then SUMMER TIME


Lixo

Um estrangeiro muito rico e um português muito pobre tinham cada um o seu filho.

O estrangeiro muito rico levou o filho ao ponto mais alto da Serra da Estrela e mostrou-lhe com um gesto a portentosa paisagem em redor e disse-lhe:

– Olha, um dia todo este país será teu. Eu vou compra-lo amanhã ao preço de lixo.

O português muito pobre, levou o filho ao cimo da mesma serra, mostrou-lhe a paisagem em redor e disse-lhe, simplesmente:

– Olha. – Enquanto podes!

Pó dos Livros