Archive for Junho, 2010

Os sinais dos signos

 
Redacção feita por uma aluna de Letras, Fernanda Braga da Cruz, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa.

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.

Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.

Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo.

Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.

Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.

Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.

Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.

Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.

Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.

Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.

Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.

Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisto a porta abriu-se repentinamente.

Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.

Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.

Que loucura, meu Deus!

Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.

Só que, as condições eram estas:

Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

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Santos Populares

Aproveitando as festas dos Santos e em jeito de quadra popular

Imagem de dan´s


Pilar del Rio

Gosto de Saramago, gosto da sua forma de povoar o texto com vírgulas e frases de uma página, gosto da sua irreverência, gosto da sua frontalidade e humor inteligente. Até aí, nada de novo. Muitos o amam, muitos o detestam, não sei se há quem lhe fique indiferente.

Mas, o que mais me fascina e comove é a forma como a sua mulher, sempre presente e muito discreta, lhe dá alma e vida. Com esse Pilar a sua obra tem outro significado, que contrasta com a sua frieza em muitos temas e até com a sua descrença na humanidade..

«Se eu tivesse morrido antes de te conhecer, Pilar, teria morrido sentindo-me muito mais velho. Aos 63 anos, a minha segunda vida começou.»


Nunca amamos alguém

Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso – em suma, é nós mesmos – que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa (…)
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No próprio acto em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois ‘amo-te’ ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada uma quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constitui a actividade da alma. (…)

Fernando Pessoa


Dia de Portugal

Depois de alguma pesquisa sobre o que os Portugueses pensam de si próprios, eis alguns conceitos que considerei bastante curiosos:

Ser português é…

Levar o arroz de frango para a praia.

 Guardar aquelas cuecas velhas para polir o carro.

Criticar o governo local mas jamais se queixar oficialmente.

Ladie’s night à quinta.

Ter tido a última grande vitória militar em “1385”.

Enfeitar as estantes da sala com as prendas do casamento.

Guiar como um maníaco e ninguém se importar com isso.

Viajar pó quinto do caralho e encontrar outro Tuga no restaurante.

Ter folclore estudantil anual por causa das propinas.

Ninguém saber nada do nosso país excepto os Brasileiros e os Espanhóis que gozam dele.

Levar a vida mais relaxada da Europa, mesmo sendo os últimos de todas as listas.

Ter sempre marisco, tremoços e álcool anualmente a preços de saldo.

Receber visitas e ir logo mostrar a casa toda.

Dar os máximos durante 10 km para avisar os outros condutores da polícia adiante.

Ter o resto do mundo a pensar que Portugal é uma província espanhola.

Exigir que lhe chamem “Doutor” mesmo sendo um Zé Ninguém.

Exigir que o tratem por Sr. Engenheiro mas não tratar ninguém com outras profissões por Sr. Pintor, Sr. Economista, Sr. Contabilista, Sra. Secretária, Sr. Canalizador, Sra.Cabeleireira.

Passar o domingo no shopping.

Tirar a cera dos ouvidos com a chave do carro ou a tampa da esferográfica.

Axaxinar o Portuguex ao eskrever.

Gastar 10 mil contos no Mercedes C220 cdi, mas não comprar o kit mãos- livres porque “é caro”.

Ir à aldeia todos os fins-de-semana visitar os pais ou avós.

Gravar os “donos da bola”.

Ter diariamente pelo menos 8 telenovelas brasileiras e 2 imitações rascas da TVI na televisão.

Já ter “ido à bruxa”.

Filhos baptizados e de catecismo na mão mas nunca pôr os pés na igreja.

Ir de carro para todo o lado, aconteça o que acontecer, e pelo menos a 500 metros de casa.

Lavar o carro na fonte ao domingo.

Não ser racista mas abrir uma excepção com os ciganos.

Levar com as piadas dos brasileiros, mas só saber fazer piadas dos alentejanos e dos pretos.

Ainda ter uma mãe ou avó que se veste de luto.

Ser mal atendido num serviço, ficar fodido pa vida mas não reclamar por escrito “porque não se quer aborrecer”.

Viver em casa dos pais até aos 30 anos.

Na terceira idade, pendurar o guarda-chuva nas costas.

Acender o cigarro a qualquer hora e em qualquer lugar sem quaisquer preocupações.

Ter pelo menos 2 camisas traficadas da Lacoste e 1 da Tommy (de cor amarelo canário e azul cueca).

No restaurante largar o puto de 4 anos aos berros e a correr como um louco a incomodar os restantes tugas.

Ter bigode e ser baixinho(a).

Conduzir sempre pela faixa da esquerda da auto-estrada (a da direita é para os camiões).

Ter o colete reflector no banco do passageiro.

Pendurar o cd no retrovisor para “enganar o radar”.

Ter três telemóveis.

Jurar não comprar azeite Espanhol nem morto, apesar da maioria do azeite vendido em Portugal ser Espanhol.

Organizar jogos de futebol solteiros e casados.

 Ir à bola, comprar “prá geral” e saltar “prá central”.

Gastar uma fortuna no telemóvel mas pensar duas vezes antes de ir ao dentista.

Cometer 3 infracções ao código da estrada por quilometro percorrido.

 Enviar mails a denegrir a própria espécie.

Todas as novas sugestões são bem vindas...