Archive for Maio, 2010

Soneto

Afinal a tradição ainda é o que era!!!

Lobo solitario: febrero Lámina

Surge  Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos  ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São  Bento
E o Decreto da fome é  publicado.

Edita-se a novela do  Orçamento;
Cresce a miséria ao povo  amordaçado;
Mas os biltres do novo  parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E  enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo  de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também  faz o pequeno “sacrifício”
De trinta contos – só! –  por seu ofício
Receber, a bem dele… e da  nação.     

JOSÉ  RÉGIO (1969).


O filósofo e o Lobo – fim

Uma leitura muito intensa… Poucas foram as frases deste livro que não me envolveram, fizeram parar e pensar. Projectei-me na amizade entre o professor de filosofia e o seu imponente lobo.

Estamos no nosso melhor quando a morte se inclina sobre o ombro e não há nada a fazer, e o nosso tempo está prestes a acabar. Mas dizemos que se lixe à linha da nossa vida e apesar de tudo abraçamos o momento. Vou morrer mas neste momento sinto-me bem, sinto-me forte. E vou fazer o que me apetece. Esse momento completa-se a si mesmo  não precisa de ser justificado por outros momentos, passados ou futuros.

Yema e Ytsari: Espero que não se sintam muito sozinhas. Tenho saudades dos nossos momentos . Durmam bem irmãs lobas. Vemo-nos nos sonhos.


O filósofo e o Lobo – parte 2

Uma das consequências do interesse obsessivo dos seres humanos pelos sentimentos é a tendência para a neurose.

Isso acontece quando o interesse passa da produção de sentimentos para a sua análise. Estás realmente feliz com a tua vida? (…)

Não há nada de mais em analisarmos a nossa vida. A vida é tudo o que temos e não há nada mais importante do que viver uma vida boa. Mas típico dos humanos é a interpretação perversa da forma como a devemos analisar: pensamos que analisar a nossa vida é a mesma coisa que analisar os nossos sentimentos. E quando analisamos os nossos sentimentos, quando olhamos para dentro e vemos o que cá está e o que não está, a conclusão a que chegamos é muitas vezes negativa. Não nos sentimos da maneira que queríamos ou da maneira que pensamos que nos devíamos sentir. Então o que é que fazemos? Como bons viciados na felicidade que somos, vamos atrás da primeira dose: um ou uma jovem amante, um carro novo, uma casa nova, uma vida nova – qualquer coisa, desde que nova.

Para os viciados, a felicidade provém sempre de qualquer coisa nova e exótica e não do que é velho e já conhecemos. E se tudo isso não resultar – o que acontece muitas vezes -, há um exército de profissionais muito bem remunerados à nossa espera, que terão o maior prazer em nos dizer onde e como arranjarmos a próxima dose.

Resumindo, talvez a forma mais simples e mais clara de descrever a espécie humana seja: os seres humanos são os animais que veneram os sentimentos.



” Um Contra O Outro”

Anda
Mostra o que vales
Tu nesse jogo
Vales tão pouco
Troca de vício
Por outro novo
Que o desafio
É corpo a corpo
Escolhe a alma
A estratégia que não falha
O lado forte da batalha
Põe no máximo que der
Dou-te a vantagem
Tu com tudo
E eu sem nada
Que mesmo assim desarmada
Vou-te ensinar a perder

Sai de casa e vem comigo para a rua
Vem, que essa vida que tens
Por mais vidas que tu ganhes
É a tua que mais perde se não vens


O Filósofo e o Lobo – parte 1

A dissimulação tem um papel primordial em todos os estudos clássicos sobre o comportamento dos primatas. Gosto especialmente destes exemplos por serem deliciosamente sórdidos: só entre os primatas encontramos esta inimitável combinação  de malícia e lascívia.

Um chimpanzé ou um babuíno macho subordinado, normalmente esconde o seu pénis erecto de um macho dominante – ao mesmo tempo que o exibe deliberadamente a uma fêmea. Para tal, coloca o braço que está do lado do macho dominante sobre o joelho e deixa cair a mão. Enquanto isso, vai lançando olhadelas furtivas à fêmea.

Um bando de babuínos viaja ao longo de um caminho estreito. Um dos babuínos, a fêmea S. descobre escondida numa das árvores uma baga muito apreciada pelo palato babuíno. Sem olhar para os outros babuínos, S. senta-se na borda do caminho e começa a arranjar-se. Os outros passam por ela e quando estão fora de vista ela salta para a árvore e come as bagas. Isto é o equivalente babuíno de fingirmos que temos de apertar o sapato quando na realidade vimos uma nota de 20 euros no chão.


O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. ‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!


Mário de Andrade