Archive for Maio, 2014

Pôr -do-sol.

Hoje, está com uma luminosidade estranha. por de sol

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Fds


Esse espanto

E a título particular o que é que a impressionou?
Eu vivia numa família, pertencia a um meio em que as casas estavam arrumadas. Não se deixava que viessem visitas sem a casa estar arrumada. De repente, começo a entrar na casa dos meus colegas e amigos ingleses e estava sempre tudo desarrumado. Ninguém arrumava porque eu ia lá a casa. Tudo isto é parte da mesma cultura. Aqui, na Lisboa desses anos, havia o sentimento do “parece mal”. Lá, nada parecia mal. A atitude é contagiosa. 

Era como se não houvesse o dentro e o fora. Quando o fora chega, apanha o dentro como o dentro está. 
Claro. Não há dentro e fora. É-se. To be. Estava a dizer isto ontem a um colega: os cientistas hoje não leram Shakespeare, não sabem Filosofia. A sociedade pergunta: “Faz isso para quê?” As coisas têm de ser para alguma coisa. Sobretudo na Biologia, que está perto da Medicina. [Investigação] para quê? Para tratar doenças, para isto, para aquilo. Para a empresa, para…

(…)

É. Depois a vida é muito mais simples. É como um rio. Se vir a origem dos rios, impressiona. A origem do Tejo ou do Volga é uma coisinha. Nem se percebe como dá aqueles rios enormes. A imagem do rio é a da vida. A única escolha do rio é que não tem escolha: vai por ali fora, por onde a montanha deixa. No rio humano, fazemos escolhas. Tirando isso, gosto mais da metáfora do rio do que da narrativa. 


Caminhando

 

passeioA caminhar com a nova música oferecida pela minha amiga Cláudia.

 


Retorno

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Marília nascera em África. Tinha na pele a marca dessa liberdade. Tudo o que lhe limitasse o corpo, os movimentos, provocava nela uma dor imensa. Por isso foi feliz na terra rubra onde decorreram os seus primeiros anos de vida.

Mas a guerra viria a determinar o retorno dos pais a Portugal. E, de caminho, o seu primeiro contacto, infeliz, com um mundo que jamais seria o seu. Tinha nove anos quando tal aconteceu.

Seguiram-se anos de saudade, não mitigada, daquelas ruas onde se mexia à vontade e onde nunca a cor da pele dos seus amigos fizera qualquer diferença.
Faltava-lhe o ar, a imensidão do território, a cor fulva do céu e o cheiro. Sobretudo, o cheiro da terra, que ela não conseguiu, nunca, encontrar em qualquer dos lugares em que viveu. Que a família chamava de continente.
Os pais desapareceram, as velhas brigas que haviam determinado o seu retorno apaziguaram e Marília continuava trinta anos depois, a considerar que nem a Europa nem Portugal eram a sua casa. Decidiu, assim, retornar a África, convencida que só lá poderia ser feliz.
Mal pisou o chão do aeroporto sentiu a diferença. O cheiro era o mesmo, mas alguma coisa tinha mudado. Instalada no hotel a sensação repetiu-se, sem que ela soubesse explicar o que é que estava diferente.
Resolveu sair, misturar-se na multidão e voltar aos lugares da sua infância para aí poder, finalmente, encher de ar, daquele ar, os seus pulmões.
Foi um choque. Os sítios estavam lá, mas nada era igual.
Sentada frente ao mar Marília percebeu que construíra um sonho. Aquela já não era a sua terra. Era, apenas, o local onde passara a sua infância…

Helena Sacadura Cabral