Archive for Fevereiro, 2013

Garda

Obrigada, Catarina.

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Henry Miller & Anaïs Nin

In 1932, months after first meeting in Paris and despite both being married, Cuban diarist Anaïs Nin and hugely influential novelist Henry Miller began an incredibly intense love affair that would last for many years and, along the way, generate countless passionate love letters. Below, in my humble opinion, is one of the most powerful examples, written by Miller in August of 1932 shortly after a visit to Nin’s home in Louveciennes.

August 14, 1932

Anais:

Don’t expect me to be sane anymore. Don’t let’s be sensible. It was a marriage at Louveciennes—you can’t dispute it. I came away with pieces of you sticking to me; I am walking about, swimming, in an ocean of blood, your Andalusian blood, distilled and poisonous. Everything I do and say and think relates back to the marriage. I saw you as the mistress of your home, a Moor with a heavy face, a negress with a white body, eyes all over your skin, woman, woman, woman. I can’t see how I can go on living away from you—these intermissions are death. How did it seem to you when Hugo came back? Was I still there? I can’t picture you moving about with him as you did with me. Legs closed. Frailty. Sweet, treacherous acquiescence. Bird docility. You became a woman with me. I was almost terrified by it. You are not just thirty years old—you are a thousand years old.

Here I am back and still smouldering with passion, like wine smoking. Not a passion any longer for flesh, but a complete hunger for you, a devouring hunger. I read the paper about suicides and murders and I understand it all thoroughly. I feel murderous, suicidal. I feel somehow that it is a disgrace to do nothing, to just bide one’s time, to take it philosophically, to be sensible. Where has gone the time when men fought, killed, died for a glove, a glance, etc? (A victrola is playing that terrible aria from Madama Butterfly—”Some day he’ll come!”)

I still hear you singing in the kitchen—a sort of inharmonic, monotonous Cuban wail. I know you’re happy in the kitchen and the meal you’re cooking is the best meal we ever ate together. I know you would scald yourself and not complain. I feel the greatest peace and joy sitting in the dining room listening to you rustling about, your dress like the goddess Indra studded with a thousand eyes.

Anais, I only thought I loved you before; it was nothing like this certainty that’s in me now. Was all this so wonderful only because it was brief and stolen? Were we acting for each other, to each other? Was I less I, or more I, and you less or more you? Is it madness to believe that this could go on? When and where would the drab moments begin? I study you so much to discover the possible flaws, the weak points, the danger zones. I don’t find them—not any. That means I am in love, blind, blind. To be blind forever! (Now they’re singing “Heaven and Ocean” from La Gioconda.)

I picture you playing the records over and over—Hugo’s records. “Parlez moi d amour.” The double life, double taste, double joy and misery. How you must be furrowed and ploughed by it. I know all that, but I can’t do anything to prevent it. I wish indeed it were me who had to endure it. I know now your eyes are wide open. Certain things you will never believe anymore, certain gestures you will never repeat, certain sorrows, misgivings, you will never again experience. A kind of white criminal fervor in your tenderness and cruelty. Neither remorse nor vengeance, neither sorrow nor guilt. A living it out, with nothing to save you from the abysm but a high hope, a faith, a joy that you tasted, that you can repeat when you will.

All morning I was at my notes, ferreting through my life records, wondering where to begin, how to make a start, seeing not just another book before me but a life of books. But I don’t begin. The walls are completely bare—I had taken everything down before going to meet you. It is as though I had made ready to leave for good. The spots on the walls stand out—where our heads rested. While it thunders and lightnings I lie on the bed and go through wild dreams. We’re in Seville and then in Fez and then in Capri and then in Havana. We’re journeying constantly, but there is always a machine and books, and your body is always close to me and the look in your eyes never changes. People are saying we will be miserable, we will regret, but we are happy, we are laughing always, we are singing. We are talking Spanish and French and Arabic and Turkish. We are admitted everywhere and they strew our path with flowers.

I say this is a wild dream—but it is this dream I want to realize. Life and literature combined, love the dynamo, you with your chameleon’s soul giving me a thousand loves, being anchored always in no matter what storm, home wherever we are. In the mornings, continuing where we left off. Resurrection after resurrection. You asserting yourself, getting the rich varied life you desire; and the more you assert yourself the more you want me, need me. Your voice getting hoarser, deeper, your eyes blacker, your blood thicker, your body fuller. A voluptuous servility and tyrannical necessity. More cruel now than before—consciously, wilfully cruel. The insatiable delight of experience.

HVM


Houve um tempo em que, nos amores e nas paixões, se falhava de forma espectacular. Com baba e ranho. Dava-se tudo. Saíamos rasgados de pele e coração. Valia sempre a pena, mesmo quando perdíamos o chão.

Os erros, as faltas, as vertigens, o pé à beira do abismo existiam para nos lembrarmos de que somos humanos. A regra era cair e levantar, prontos para outra depois de lutos intensos, sofridos, partilhados. Agora tudo isso existe sob a forma de prevenção. Para nos lembrarmos do que não devemos fazer, dos riscos que não devemos correr, contra o vírus da solidão.

Fomos ficando higienizados. Da alma à cama. Uma espécie de “se conduzir, não beba” para evitar os males do coração. Como se pudéssemos dizer “se amar, não se magoe”.

Com o passar dos anos, aprendemos a contornar os sintomas a bem da decência, da pose e da anestesia geral ou local, conforme as necessidades. O importante é não dar parte de fracos.
O ciúme é uma coisa moderna, para ser compreendida. A discussão acalorada está fora de moda.
A vingança é um prato que não se serve frio nem quente nas relações mais conceituadas. É coisa do povo, ementa de vidas de tasco, entre um tiro de caçadeira e um facalhão de meter respeito.

O civismo entrou definitivamente na nossa intimidade para amansar os corpos, os gestos, as palavras. A postura é um fato de pronto-a-vestir que usamos para entrar e sair das relações. Talvez até já nem se rasguem roupas quando chega a hora. O sentimento não ferve, a aprendizagem das loucuras que fizemos é renegada e a história do que fomos não tem disco duro porque a caixa de mensagens é mais prática e descartável. De resto, já não há cartas para guardar porque ninguém as escreve. Quem as leria, de resto, se tivessem mais de 140 caracteres?

Como num poema do Eugénio, já não há nada que nos peça água. E estamos como ela: insípidos, inodoros e incolores. Leves. Capazes de ir do tudo ou nada sem efusão de sangue. Deve andar a escapar-nos o momento em que deixamos de olhar a vida nos olhos e a desregrada infinidade de coisas que vinha junto com ela.

Miguel Carvalho in Revista Egoísta


Os Excluídos

Quem comete um erro é excluído; é fechado dentro de uma caixa. Quem está fora vê apenas a caixa. Mas quem está fechado, excluído, consegue ver cá para fora. Vê tudo, vê-nos a todos.

Em cada compartimento há dezenas de caixas. Milhares de caixas por todo o lado. A maior parte delas vazia. Outras têm lá dentro pessoas excluídas. Ninguém sabe quais as caixas que têm pessoas.

As caixas são tantas que ninguém lhes dá importância. Pode estar lá uma pessoa, até a que amas, mas nem olhas. Já não produzem efeito. Passas por elas centenas de vezes.

Gonçalo M. Tavares in Jerusálem


Amamos o que não conhecemos

Amamos o que não conhecemos, o já perdido.
O bairro que foi arredores.
Os antigos que não nos decepcionarão mais
porque são mito e esplendor.
Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.
A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O Oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.
Os mais velhos, com quem não conseguiríamos
conversar durante um quarto de hora.
As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.
Os idiomas que mal deciframos.
Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem faltar porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.
A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não sei.

Jorge Luís Borges


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FAZ HOJE 26 ANOS QUE MORREU ZECA AFONSO


Acendedora de estrelas

Dizia Kant que havia duas coisas que o enchiam de respeito e admiração: o céu estrelado acima dele e a lei moral dentro dele. O céu estrelado fazia-lhe sentir o peso da insignificância do ser humano perante a escura e esmagadora imensidão dos espaços cósmicos. O que somos nós no universo? Uma merda, uns vermes cósmicos que, se esmagados por um cometa, não provocam qualquer cócega na Via Láctea.
Mas, depois, olhando para dentro de nós, vamos encontrar a lei moral. Ah! A lei moral. As leis do universo transcendem-nos, não são nossas, não fomos nós que as fizemos. Limitamo-nos apenas a conhecê-las. Mas a lei moral, ah ah, essa pertence-nos, é nossa e ninguém nos tira. Em que parte do universo é que há lei moral? Tanto universo, tanta estrela, tanta galáxia, onde raio vamos encontrar uma lei moral? Em lado nenhum excepto dentro de nós, dentro destas merdas sem qualquer valor, estas insignificantes pulgas que passam despercebidas no dorso do universo. Esse universo esmaga-me mas a lei moral que só eu possuo e conheço permite-me vingar da sua estúpida e inútil imensidão, escarnecer de um universo sem consciência de si, encher-me de orgulho antropológico apesar de não sermos propriamente uns anjinhos com asinhas a dar a dar.
(…)
Quero lá saber se é o Sol que gira em torno da Terra ou se é a Terra que gira em torno do Sol. É igual ao litro. Mas a lei moral, essa sim, continua a preocupar-me, essa sim, continuo a persegui-la. Posso morrer ignorante e estúpido a respeito da escura e tenebrosa imensidão do espaço cósmico. Quero lá saber, que se lixe o universo. Morrer sem a consciência tranquila, isso sim, é morrer na mais densa e tenebrosa escuridão no interior desse universo que pode ser insignificante, ridículo, irrisório, mas que é o meu. Se quando eu morrer pedir mais luz, não é a das estrelas que peço.

Ponteiros Parados


“Tu as tout à apprendre, tout ce qui ne s’apprend pas: la solitude, l’indifférence, la patience, le silence.”

Georges Perec, Un homme qui dort.


The road

You have to carry the fire.
I don’t know how to.
Yes, you do.
Is the fire real? The fire?
Yes it is.
Where is it? I don’t know where it is.
Yes you do. It’s inside you. It always was there. I can see it.

Cor­mac McCarthy


Amor como o pintam


A teoria geral do esquecimento

M. dera a volta ao mundo em bicicleta. Se lhe perguntavam porquê respondia sorrindo: distracção. A determinada altura estava tão longe de casa, que tanto fazia voltar, quanto seguir em frente. Seguira em frente.

Na festa do seu centésimo aniversário apareceu a televisão. Qual o seu segredo? – perguntaram-lhe. Respondeu sorrindo: distracção.

José Eduardo Agualusa


fds covilha 065

Amava e compreendia cada vez mais as pessoas e cada vez mais, no entanto, percebia que devia isolar-se delas.


O Paciente Inglês

Depois de mais uma manhã em que jovens adolescentes se sucedem, com garruços enfiados até aos olhos e tentativas insuportavelmente sucessivas de utilizar o telemóvel, interrompidas por perguntas como: “O que é que quer dizer “super fula”? (supérflua) – decidi vir almoçar a casa, tendo uma série de projectos para a tarde, daqueles que enchem o quotidiano de desinteresse. ( ir às compras, cozinhar, …)

Fui surpreendida, VIAJEI e LEVITEI. OH, THANK YOU!


Vidas

Foi quando tivemos essa primeira conversa sobre nós que disseste: Porque é que as mulheres se desgostam de mim?.
Eu pensei que estavas a brincar, era uma ideia que nunca me tinha passado pela cabeça, poderia alguém desgostar-se de ti, mas tu insististe, e havia na tua voz um leve traço que não era de amargura mas de cansaço, creio que, naquele momento, tu acreditavas sinceramente que era isso que se passava, mas parecia-me estranho que o confessasses, afinal um homem tem meia dúzia de ideias enterradas na cabeça, como é que um homem pode admitir que as mulheres se desgostam dele, tu riste-te divertido, e disseste, se calhar é porque não sou bem um homem, e isso era ainda mais absurdo, eu nunca tinha conhecido um homem como tu, mas também, é verdade, eu não tinha idade para ter conhecido tantos homens como isso, fizeste-mo notar, mas aos poucos fui percebendo o que querias dizer com o desgosto, e não era um acto de modéstia, pelo contrário, dentro de ti havia qualquer coisa que te murmurava a mais humilhante de todas as perguntas, como é que uma mulher se pode desgostar de mim, e era isso que tu não suportavas, isso era muito pior que todas as traições e todas as infidelidades, que todos os divórcios e todas as rupturas, no fundo tu gostarias que mesmo as mulheres a quem tivesses dito acabou-se conservassem por ti um sentimento mais profundo, que de alguma forma fizesses parte da vida delas, mas não exactamente da forma como uma pessoa faz parte da vida passada de outra, isto é, arrumada na memória, antes como uma imagem recorrente (esta palavra é tua, desculpa), uma espécie de saudade que o tempo transforma mas que nunca se consegue anular.

E eu disse-te que não, que não era possível, não sei bem se porque achava mesmo que não era possível, ou se porque intuí que talvez fosse isso que querias ouvir, mas jurei-te que eu gostava de ti, há semanas, meses, dias e noites que vivia em função de ti, dos teus desejos, da tua alegria, do teu sorriso e também, eu podia dizer-to, dos teus beijos, da forma como os teus dedos me tocavam ao de leve nos ombros e lentamente me percorriam até à cintura, e da forma como o teu corpo se colava ao meu, fazes-me tão feliz, disse-te, eu até talvez nunca tivesse sabido o que era a felicidade, nunca tinha amado ninguém assim, e tu franzias o sobrolho, repetias-me, nunca se diz nunca, e rias-te, cada um de nós ama sempre absolutamente quando ama, e parece que nunca houve nada assim, e eu exasperava-me, porque é que havias de relativizar tudo, de reconduzir todos os absolutos de que a nossa cabeça está cheia até à insuportável indiferenciação do mundo das pessoas crescidas, eu disse pessoas crescidas, e tu riste-te de novo, mas sem condescendência, apenas muito casual, e disseste, repara, é esse o mundo definitivo, aquele em que se entra para nunca mais se sair, o resto, a infância, a adolescência são etapas, estações, disseste estações, lembro-me perfeitamente, e eu segui um raciocínio qualquer, e de repente tinha-me perdido de todo da conversa e ouvi a minha voz perguntar-te, em que estás a pensar, e tu, muito admirado, em nada, meu amor, e ficámos assim. Isso foi da primeira vez que falámos sobre nós.

Foi depois disso que percebi a tua vulnerabilidade. Eu explico: o que me intrigava em ti era a tua capacidade de defenderes uma moral da vulnerabilidade sem nunca mostrares que a tua vida também se regia por ela.

Por exemplo, falavas do ciúme, da paixão, do fanatismo das convicções, do subjectivismo e da solidariedade incondicional com os amigos e a família, e, no entanto nem uma vez eu fora capaz de te apanhar a praticar esses pequenos excessos, desvios a uma conduta socialmente virtuosa, falhas numa compleição mental moldada pelo dever-se do mundo dos da tua geração.

E, de repente, percebi que tinhas ciúmes, e que vivias desesperadamente contigo esse sentimento do qual, em última análise tinhas vergonha, e dia após dia era um mal-estar que crescia entre nós, comecei por pensar que era uma das tuas neuras, mas as tuas neuras, tão intensas, normalmente são passageiras, então assustei-me, pensei o inevitável, que estavas absolutamente farto de mim, que bruscamente tinha deixado de te interessar, até fisicamente, parecia-me, alguma coisa se tinha quebrado entre nós, com o coração apertado comecei a preparar-me para o dia em que ias voltar-te para mim muito sério e dizer, ouve, temos que ter uma conversa, há uma coisa que já ando para te dizer há uns dias, tenho estado a pensar que era capaz de ser melhor afastarmo-nos por uns tempos, preciso pensar, de perceber que rumo quero dar à minha vida, desculpa-me, eu sei que sou muito complicado, mas que queres, as minhas manias acabam por tornar-me insuportável até a mim próprio, mas não quero magoar-te e até gostava que ficássemos amigos, devia ser assim, eu tinha lido exactamente essas frases no livro de um autor português, e eu ia ficar sucumbida, não, isso é que não, eu não podia ficar sucumbida, não isso é que não, eu não podia ficar sucumbida à tua frente, ia levantar-me muito depressa, nem sequer seria capaz de te olhar de frente, ia dizer-te então adeus, e tu, espera, não tens nada para me dizer, e depois, meu querido, tu sabes como são as mulheres quando se põem a imaginar, depois haveria lágrimas e os teus olhos iam comprimir-se numa aflição, ias atrás de mim até à porta, agarravas-me no braço esquerdo, vejo a cena perfeitamente, vi-a durante esses dias tantas vezes e era sempre igual, agarravas-me no braço esquerdo e puxavas-me para ti, muito devagar, e a tua voz seria por uma vez sincera, eu queria ouvi-la como se fosse sincera, e dizias-me, preciso tanto de ti, e como de costume eu ia desfazer-me nos teus braços e tudo seria como dantes, talvez melhor, pelo menos isso eu deixava em aberto, interessava-me mais a fulgurância do meu sonho suspenso no tempo, para sempre inscrito na minha memória de ti, do que o que se poderia seguir a este momento dramático na minha imaginação.

Mas não era isso. Pelo menos dessa vez não era isso, e creio que nunca chegou a ser. Durante o tempo em que estivemos juntos, um Verão inteiro, lembras-te? Evitámos o drama, ou evitaste-o tu pelos dois, e é isso que eu dizia, a vida descrita por ti devia ser um vulcão de excessos, uma aventura no limiar do irracional, era quase uma ficção, e eu deveria ter percebido que essa é a tua maneira de viver, um romance vale mais que mil ensaios, dizias muitas vezes, e tinhas razão, pelo menos tinhas a tua razão, e é por isso que percebo o que querias dizer com a história do bêbado e da vida dele, sim, cada um vive por dentro a sua própria metade da vida convencido que é apenas uma metade, mas na realidade é a sua vida inteira, a sua vida incomunicável, sentida como coisa tão inteiramente sua que nem sequer vale a pena partilhá-la, e isto é mentira, é uma mentira moral, não se trata de não valer a pena, isso é uma desculpa com que se ilude o pavor de não se poder transmitir e partilhar, estamos tão longe uns dos outros, é isso que eu sinto, como estou longe de tudo e de ti, meu amor.

Mas dessa vez, percebi os teus ciúmes. E dei-te pretextos, suponho, mas eu era tão desajeitada nisso como noutras coisas, acho que era tão inocentemente óbvia que tu nem tinhas coragem, uma coragem estética, digamos, de levantar a questão, devias viver dentro de ti um combate feroz, mas isso era uma coisa que tu achavas que só podias resolver contigo, e eu precisava, juro-te que precisava que me dissesses qualquer coisa, que mostrasses, com toda a crueldade de que eras capaz quando te sentias ferido, que era uma ferida o que te estava a doer, eu só queria uma razão, mínima que fosse, para me lançar nos teus braços, e jurar-te a única, a mais absoluta das verdades, que te amava, que não podia conceber amar mais alguém, que o amor, tu tinhas que perceber isso, não é uma coisa que se acrescente a outras coisas que já se têm, que não consente sobreposições nem contiguidades, eu sentia isso assim de uma forma muito simples, mas não tenho a certeza de que essa não seja a melhor forma de sentir as coisas mais importantes da nossa vida.
Mas não foi possível arrancar-te uma palavra e acho que foi aí que tudo começou.

Foi um sentimento vago, a princípio eu achava que era uma criancice, uma crise passageira, eu gostava tanto de ti, precisava de ouvir a tua voz a todas as horas do dia e isso era gostar, sim, era gostar verdadeiramente, fisicamente, percebes, sentia a tua falta nos lugares onde estava e desejava correr para casa, abraçar-te muito, ficar ali a ler e a conversar contigo, ouvíamos ópera e canções de cabaré e depois amávamo-nos, às vezes íamos jantar fora e tu bebias, ficavas num estado de euforia incontrolável, e desarmavas-te, dizias-me que me amavas e os teus olhos ficavam líquidos de felicidade, eu sei, meu amor, eu sei que era verdade, mas agora é tarde, só depois é que percebi que essa era a tua única forma possível de viveres de acordo com a tua moral desregrada de vida, que esse estímulo exterior, esse excesso, era exactamente à medida da transgressão de sentimentos que defendias, mas nessa altura não, de repente apercebia-me de que só me falavas assim quando bebias e isso mais me confirmava na convicção de que contigo nada seria nunca demasiado sério, e que esse teatro meio ébrio com que me cobrias de ternura era, ainda e sempre, uma forma de ocultares a tua indiferença, não digo indiferença, mas pelo menos a forma tão relativa como gostavas de mim.

Sentia que me amavas por fora de mim, que entre nós só existia uma precariedade feita do simples desejo de estarmos um no outro, e que isso tornava absurdo todos os sonhos que sonhara contigo, tenho pudor em escrevê-los e também agora já não interessa, mas a minha vida imaginada ficara pelo caminho e eu tentava desesperadamente perceber onde é que falhara e, era curioso, ao mesmo tempo tinha a sensação confortável de que o nosso fora um episódio sem falhas, nem tuas nem minhas, e isso revoltava-me, porque era injusto que duas pessoas tão obviamente feitas uma para a outra, desculpa a vulgaridade, se atropelassem assim, na pressa de partirem cada uma para seu lado.

Quando dei por mim, dei comigo a desejar estar contigo e a suportar mal a tua presença.
E isso talvez não fosse uma sensação nova na minha vida, apenas que, pela primeira vez, o desejo de te tocar era tão forte como a vontade de partir.

Demorei muito tempo até perceber verdadeiramente que, de uma forma ou de outra, eu tinha saído da tua vida, e tu compreendeste-o primeiro do que eu, é natural, uma vez mais encontravas-te perante uma situação reconhecível, mas eu nessa altura achava que não, que tu no fundo é que nunca tinhas querido entrar na minha vida, que pela tua cabeça nunca tinham passado projectos de que eu tivesse feito parte, tu sabes como é, meu querido, começamos por responsabilizar os outros e quando tomamos consciência de que o que está em causa somos nós, a nossa metade que é a nossa vida inteira, já deitámos tudo a perder, nem sequer somos capazes de preservar a contiguidade que está tão próxima do amor, talvez fosse isso que querias dizer quando falavas em gerir a vida como uma economia de troca, mas também essa é uma verdade que se aprende muito depois, ainda agora não me sinto preparada para a aceitar, não sei se alguma vez estarei do teu lado, mas já sei, digo isto porque na minha idade vê-se a vida só como futuro e o futuro não pode ser outra coisa que a projecção quase automática do presente.

Apetecia-me ficar por aqui, mas espera, ainda quero dizer-te uma coisa.
Lembras-te de uma noite te ter perguntado se duas pessoas podiam viver juntas em mundos diferentes?
Tu ficaste muito sério, percebi que, por qualquer razão que tinha a ver com a tua história pessoal, era uma pergunta que já te tinhas colocado a ti próprio.

Depois, quase a medo, disseste que teoricamente era uma hipótese admissível, que durante muitos anos tinhas pensado que essa era mesmo a forma mais recomendável para evitar o tédio que nasce do hábito quando a rotina se sobrepõe aos afectos, que talvez essa fosse a única forma de fazer uma relação sobreviver no tempo, mas que era preciso que na base desse entendimento houvesse uma espécie de pacto, aqui o meu domínio reservado, ali o teu, mas o pior, disseste, o pior é que, pouco a pouco, os territórios vão-se definindo até à incomunicabilidade, e os seus lugares relativos crescem até ocuparem o espaço inteiro que antes era o domínio comum dos sonhos e dos projectos, e sem sonho, tu mesmo o disseste, sem sonho não há amor que resista.

Ficaste calado muito tempo, tinhas qualquer coisa dentro de ti e eu vi que não estava lá, e senti um ciúme insuportável da tua vida, de tudo o que cabia dentro da tua vida, as tuas alegrias e o teu sofrimento, a tua mágoa injustificável e o teu sorriso sem contemplação, os romances que querias escrever e até aqueles que não sabes ainda que vais escrever.

E era isso a sensação de dois mundos separados, de dois universos que nunca poderiam sobrepor-se, de duas metades que nunca se juntariam uma à outra, dir-me-ás, mas nunca se juntam, eu sei, mas, por favor, deixa-me essa última parcela de ilusão, eu quero acreditar, ao menos por algum tempo mais, que a vida tem que ser uma e uma só, e isso, se acontecer, acontece para sempre, e fica estampado no vidro baço do nosso desejo de perdição.

Pronto. Tinhas razão, é preciso escrever para que as coisas nos apareçam com a clareza que nos serve, eu sei que tudo se torna nítido não porque os nossos olhos tenham mudado, apenas porque a escrita funciona como uma lente que apura os contornos e permite compreender os finíssimos laços que os afectos entretecem entre as pessoas.

Agora, vou deixar-te esta carta no escritório, em cima da secretária, e depois atravesso o corredor às escuras, rodo o manípulo da porta muito lentamente e vou sair sem fazer barulho. Para não te acordar.

António Mega Ferreira


Sonhos

Um projecto assalta-me: escrever incessantemente para poder deixar de escrever. Sonho com uma velhice silenciosa, a mão sobre a cabeça terna de um cão, a alegria cíclica dos jardins públicos, sonho com uma velhice onde a solidão não seja nunca uma coisa tremenda, mas a consequência lógica de toda uma vida.
A solidão que eu povoo de murmúrios e carícias, sorrisos quase tristes, rostos que eu tento não esquecer.

desconheço o nome do pássaro que canta toda a noite

Al Berto, Diários


Um mimo

I, with a deeper instinct, choose a man who compels my strength, who makes enormous demands on me, who does not doubt my courage or my toughness, who does not believe me naïve or innocent, who has the courage to treat me like a woman.

Anaïs Nin