Não há bela sem senão: o nada fazer a que me  entreguei com fervor durante o fim-de-semana impediu uma ida ao supermercado em demanda de uns víveres que, hoje, começaram a fazer sentir a sua falta. Predispus-me, resmungando. Ainda não pusera o sapatinho na rua, quando uma amiga me chamou no telemóvel. Queria beber um chazinho e desabafar. Amores, pensei. Esta minha amiga é muito dada aos amores mal acabados e não tem emenda. É só fazerem-lhe uns olhares da tipologia ai-eu-sem-ti-não-sou-nada que ela arma logo cama e pucarinha. A uma outra das minhas amigas acontece o mesmo mas é com os cachorrinhos perdidos. Leva-os para casa, dá-lhes banho e os bichos reluzem. Não me consta, porém, que alguma vez as coisas tenham corrido mal. Mas esta minha amiga dos amores humanos, volta não volta, desfaz-se em arrependimentos e desabafos. Eu, que Deus me perdoe, não tenho paciência para o amor. Não sei falar de amor, não sei escrever histórias de amor, já lá estive, sei como é, obrigadinha. Mas se há coisa que eu tenha de algum merecimento é o de estar sempre, assim os deuses me ajudem, onde os amigos precisam de mim. E ela precisava e eu lá fui. The same old story, claro. O amor é a coisa menos original do mundo. Ouvi-a, tornei a ouvir e disse-lhe o que já lhe dito de outras vezes. O homem é o assunto mais interessante que Deus Nosso Senhor pôs sobre esta terra. Têm ombros largos e mãos grandes, cheiram a cigarros, sabem a licor de café e a cara deles arranha um bocadinho. São óptimos. Mas não são para levar para casa. É deixá-los no seu habitat natural, junto aos gatos vadios e às estrelas cadentes. E sempre que eles sussurram, vulpinos, na tua casa ou na minha? é de responder sempre, com voz de promessa, na tua, querido. Porque, como lhe voltei a dizer, eles têm muitos inconvenientes: usam umas camisas que têm punhos e colarinhos e aquilo tem de ser passado a ferro com um vinco certinho a meio da manga e, entre outras coisas mais, tem de se lhes explicar tudo porque são incapazes de adivinhar o que nós estamos a pensar. Não compensa. Ela ouviu-me, disse que sim, mas já sei. Há-de choramingar durante uns dias, depois vai esquecer. O problema é que vai esquecer tudo. Não lhe dou dois meses para estar de volta aos mercados.

A Ronda dos Dias.

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