I’m selling my soul

Vamos lá ver, no fundo, nem desgosto de trabalhar, e é até com um certo estoicismo que enfrento este destino de Sísifo que carrego diariamente às costas. Mas do que gosto mesmo, mas mesmo, é de não trabalhar. Não quero parecer frívolo, pedante e cruel numa altura em que o desemprego sobe tanto. É horrível estar desempregado e ficaria destroçado se amanhã acordasse sem trabalho. Só que não seria por não estar a trabalhar mas apenas por não ter dinheiro para me poder sustentar. Eu não falo do prazer de não ter emprego, falo do prazer de não trabalhar quando se tem emprego.
São tantas as coisas boas que só podemos fazer por não estarmos a trabalhar. Uma delas é não fazer absolutamente nada. Daí eu olhar com desconfiança para as pessoas que regressam com ar festivo ao local de trabalho como se pertencessem a uma daquelas seitas religiosas onde se canta, chora e  se dão as mãos. Lembra-me um pouco aquilo a que o escritor Vassili Grossman chama de “ascetismo laboral”. Ter aquele ar de quem vive para o trabalho, concentra tudo no trabalho, olhos de trabalho, ouvidos de trabalho, pele de trabalho. Quase uma erótica do trabalho, que, nalguns casos mais chocantes chega mesmo a ser pornográfico.
José Ricardo Costa

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