Vividos

«Ainda tens os cabelos loiros Ireneia? Ainda moras na rua da escola? Ainda pões aquela saiazinha verde muito curta e os patins de botas brancas, ainda giras à roda à roda à roda no ringue de patinagem do Académico, de braços no ar por cima da cabeça, sem olhar para mim, sem olhar para ninguém? Ainda fazes uma vénia quando a música acaba, mesmo que não haja ninguém para aplaudir? Lembro-me de saíres da rua da escola com os patins às costas e me espantar por andares como as outras pessoas, por andares como eu porque me era difícil imaginar-te fora do ringue, a girar à roda à roda à roda, de braços no ar por cima da cabeça, porque me era difícil imaginar-te com uma vida como a nossa, emprego, casa, jantar, dores de dentes, gripes, conta do gás, era-me difícil imaginar-te no meio de torneiras que não vedavam bem, de tectos que pingavam no inverno, de discussões, de borbulhas, de pontos pretos, de rafeiros que nos esquecemos de levar às árvores e se descuidam na esteira. Ainda pões aquela saiazinha verde, Ireneia, ainda ficas muito séria quando a música acaba, dobrada numa vénia sem olhar para ninguém? O teu pai era empregado na Carris, picou-me bilhetes vezes sem conta, chamava-se senhor Geraldo e era careca, a tua mãe deixou o lugar na praça por causa das artérias que eu bem a ouvia queixar-se à minha tia- o meu ponto fraco são as artérias dona Lúcia e eu achava esquisito, achava impossível teres nascido deles e morares numa cave da rua da escola de duas divisões se tanto, janelas à altura do passeio e uma cadelita com uma capa de lã sempre a ladrar lá dentro, achava esquisito viveres com o senhor Geraldo e a senhora das artérias- o médico não há maneira de me atinar com os comprimidos dona Lúcia que puxava o corpo com uma bengala e se lamentava de o senhor Geraldo se tornar violento com a cerveja- Até um pontapé deu na Menina, dona Lúcia, que ficou a ganir a tarde toda achava de tal maneira esquisito, de tal maneira impossível que para mim tu não existias na rua da escola, Ireneia, existias no ringue do Académico, a girar à roda à roda à roda com aquela saiazinha verde muito curta e os patins de botas brancas, livre de artérias, cadelas e cervejas a agradecer as palmas que ninguém batia, existias sozinha, acima de nós, etérea, inalcançável, diferente, livre das nossas maçadas e da nossa falta de dinheiro, vogando de cabelo preso num laço o teu cabelo loiro Ireneia num bairro onde não existiam lojas de penhores nem obras no alcatrão nem desempregados a jogarem sueca sentados nos tijolos de uma obra no largo que não acabava nunca, que os operários abandonaram a meio deixando poeira e sacos e andaimes a atravancarem a passagem para a igreja e a obrigarem-nos a dar a volta pelo acampamento dos ciganos ou pelo terreiro do circo que era só um palhaço e um leão tinhoso à espera, à entrada de uma rulote, do público que não havia. Que é feito de ti Ireneia? Dizem-me que engordaste mas não acredito, que o senhor Geraldo morreu, que a tua mãe morreu, que habitas a cave na rua da escola casada com um empregado dos telefones, que também sofres das artérias, que nunca mais patinaste no Académico mas não pode ser. Amanhã à tarde vou lá ao ringue ver-te porque tenho a certeza que mesmo passados trinta anos ainda tens os cabelos loiros, ainda tens aquela saiazinha verde muito curta, ainda giras à roda à roda à roda de braços no ar por cima da cabeça e quando a música acabar e te dobrares numa vénia sem olhar para ninguém, se por acaso deres conta de uma criatura na bancada a aplaudir-te sou eu. Não mudei muito. Claro que estou mais velho mas sou eu. Aquele rapaz gago com uma falhazita no lábio, que nunca teve coragem de sorrir-te, nunca teve coragem de te dizer olá. O sobrinho da dona Lúcia, que a dona Lúcia garantia não passar da cepa torta derivado ao pé boto e àquele defeito na fala. Realmente não passei da cepa torta mas continuo a ir ao ringue de patinagem aos domingos na esperança de te ver girar à roda à roda à roda e sentir-me feliz. Gostava que aparecesses um dia Ireneia: é que às vezes é um bocadinho triste bater palmas para um ringue vazio.»

Saudades de Ireneia, António Lobo Antunes

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