A fotografia tem a textura de uma ficção.
HDR_Zuch, a photo by Hugo Calhelha on Flickr.
The Copper Beeches
S.Holmes – Você olha para estas casas dispersas e fica impressionado pela sua beleza. Eu olho para elas e a única coisa que vejo é o sentido do seu isolamento e da impunidade com que um crime aqui pode ser cometido.
Watson- Por amor de Deus, quem é que associa o crime a estas quintas amorosas?
S.Holmes- As mais sombrias e vis ruas de Londres, não são mais pecaminosas do que o adorável e bonito campo.
Já o tempo se habitua
Já o tempo Se habitua
A estar alerta
Não há luz Que não resista
À noite cega
Já a rosa Perde o cheiro
E a cor vermelha
Cai a flor Da laranjeira
À cova incerta
Água mole Água bendita
Fresca serra
Lava a língua Lava a lama
Lava a guerra
Já o tempo Se acostuma
À cova funda
Já tem cama E sepultura
Toda a terra
Nem o voo Do milhano
Ao vento leste
Nem a rota Da gaivota
Ao vento norte
Nem toda A força do pano
Todo o ano
Quebra a proa Do mais forte
Nem a morte
Já o mundo Se não lembra
De cantigas
Tanta areia Suja tanta
Erva daninha
A nenhuma Porta aberta
Chega a lua
Cai a flor Da laranjeira
À cova incerta
Nem o voo Do milhano …
Entre as vilas E as muralhas
Da moirama
Sobre a espiga E sobre a palha
Que derrama
Sobre as ondas Sobre a praia
Já o tempo
Perde a fala E perde o riso
Perde o amor
Zeca Afonso
Zeca Afonso
Intemporal
A toda a parte Chegam os vampiros
Poisam nos prédios Poisam nas calçadas
Trazem no ventre Despojos antigos
Mas nada os prende Às vidas acabadasSão os mordomos Do universo todo
Senhores à força Mandadores sem lei
Enchem as tulhas Bebem vinho novo
Dançam a ronda No pinhal do rei
The beatles
O meu irmão ofereceu-me este CD. Ouçam esta preciosidade. Uma espécie de ingenuidade irreverente, tal como os seus cabelos, compridos mas alinhadinhos.
Oh, girl fhhhhhhhhhhhhh…
Paula Chorão
Hoje o espaço está todo ocupado com este sentido abraço. Até sempre, companheira.
A luta
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The blues
To play over and to use it at any tempo
Escravas, Donas e Senhoras
Na minha infância, num dos muitos passeios em família por Angola, visitámos Massangano, um forte de resistência contra a incursão dos Holandeses pela ocupação do país, no séc XVII.
Quando lá chegámos, os guias do local, um bando de crianças, correu para perto de nós e falando todos ao mesmo tempo, faziam o relato cronológico do local, começando assim: ” Antigamente, os antigos Portugueses … e iam desbobinando a informação com uma rapidez própria de qualquer brincadeira infantil.
Este início de lenga-lenga, ficou na nossa família até hoje.
Ora bem, tive a sorte de ter recebido um livro histórico romanceado, uma Metaficção Histórica, assim o denomina a autora, sobre a história de duas mulheres marcantes do seu tempo, responsáveis pela libertação de uma série de escravos e sobreviventes às contrariedades e escaramuças da época, tendo como pano de fundo as vilas de Massangano e Luanda.
Li com paixão. Obrigada, Jorge.


Fortaleza de Massangano situada na margem direita do rio Cuanza.
Por não estarem distraídos
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
Clarice Lispector
04/02/12 – 12:00
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